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15/06/2026

No Vento que Fica

 



Busca-se amor no vento
no toque leve do pensamento
na pausa breve do silêncio
quando a noite abranda por dentro

Procura-se em ruas vazias
em madrugadas frias
no eco distante dos passos
e nas pequenas nostalgias

Há quem o encontre num olhar
há quem o perca sem notar
como areia entre os dedos
ou ondas desfeitas no mar

Porque o amor, tantas vezes
não chega com voz nem aviso
vive escondido nas brisas
nos gestos sem compromisso

E fica
leve, invisível, constante
como o vento que passa
mas nunca passa verdadeiramente

 

***
2026-06-15 – No Vento que Fica
nn(in)metamorphosis 

10/06/2026

Entre o Calcanhar e o Destino





A poesia é um grão de areia na minha meia
mínimo incómodo de praia esquecida
um quase nada que desarruma o passo
e obriga o corpo a lembrar-se da vida
 
Caminho
e ela insiste
 
Pequena, áspera, secreta
a raspar devagar a pele do pensamento
como quem afia silêncio numa navalha
 
Há dias em que a sacudo do sapato
e juro seguir leve, prática, inteira
mas ao primeiro cruzamento do vento
já sinto outra vez o seu peso minúsculo
essa migalha de mundo
presa entre o calcanhar e o destino
 
A poesia não salva
não paga contas nem abriga da chuva
 
Mas entra sem pedir licença
e transforma a marcha mais banal
numa lenta aprendizagem da ternura
 
Porque um grão de areia
é só um grão de areia
até ferir
 
Depois disso
já nenhuma caminhada é inocente

 

***

2026-06-10 - Entre o Calcanhar e o Destino
nn(in)metamorphosis

  

Frase Base: A poesia é um grão de areia na minha meia”  
Uso devidamente autorizado


08/06/2026

Arquitectura de um beijo

 




Eu não sabia que um beijo
podia ter arquitectura
levantar catedrais
no meio da amargura

Nem que uns dedos tão breves
soubessem abrir caminhos
como quem acende lume
no inverno dos sentidos

Eu não sabia do corpo
a secreta engenharia
pontes feitas de silêncio
e janelas de alegria

Nem que a tua boca ao perto
tivesse marés e vento
e pudesse desfazer
o frio do pensamento

Agora sei há cidades
que nascem num só abraço
e há ruínas que regressam
pedra a pedra
passo a passo

Porque um beijo quando é puro
não pede nome nem jura
ergue no peito dos homens
uma impossível ternura

 

***
2026-06-08 - Arquitectura de um beijo 
nn(in)metamorphosis

05/06/2026

Mais leve que o mar

 


Aprendeu a arte
de evaporar lágrimas
 
Guardou o sal no peito
mas deixou a água subir ao céu
 
Porque há dores
que afundam quem as carrega
e outras
que, devagar
se transformam em vento
 
Percebeu então
que é mais leve ser nuvem
do que mar
 
O mar lembra tudo
A nuvem aprende a passar
 
E talvez crescer seja isso
não deixar de sentir
mas deixar de se afogar

 

 ***
2026-06-05 – Mais leve que o mar 
nn(n)metamirphosis

03/06/2026

O Azul Inteiro

 



São os dias cinzentos
que ensinam
a lembrança luminosa
das cores
 
É no céu baço
que se reconhece
a alegria esquecida
de um azul inteiro
 
Porque só quem atravessa
a chuva demorada
compreende, no silêncio
a felicidade da cor

  

***

2026-06-03 - O Azul Inteiro 
nn(in)metamorphosis

01/06/2026

Inteira em Partes


Em quantas partes me posso dividir
sem que falte um pedaço de mim?
 
Sou inteira… em partes sem fim
 
Posso ser filha, amiga, silêncio
ser riso aberto ou dor guardada
posso caber em mil caminhos
e não perder a minha estrada
 
Divido-me no tempo e nos gestos
no que dou e no que fica por dar
em cada olhar que me atravessa
e em tudo o que escolho calar
 
Mas há um centro que não se parte
um lugar fundo, quieto, meu
onde tudo em mim se encontra
e nada do que sou se perdeu
 
Talvez dividir-me seja isso
 
espalhar luz sem a apagar
ser muitas no que entrego ao mundo
 
e uma só no que insiste em ficar

 

***

2026-06-01 - Inteira em Partes
nn(in)metamorphosis 


27/05/2026

O que a Imaginação vê, o Toque confirma

 


Se a imaginação explica o mundo
é porque nele cabem infinitos caminhos
mapas desenhados sem fronteiras
verdades que nascem do sonho
 
Se a imaginação explica o mundo
é porque pinta o invisível
que dá nome ao silêncio
e cor ao que nunca vimos
 
Mas o toque…
o toque não explica
revela
 
O toque explica o amor
como um segredo dito sem voz
como um encontro de pele e destino
onde o tempo abranda
e o corpo entende antes da razão
 
No toque há certeza
não teoria
 
Há calor
não hipótese
 
mesmo quando por fora
quase nada se mostra
 
Se a imaginação constrói o universo
é o toque que o torna real
 
que transforma ideia em presença
distância em abrigo
e dois em um instante inteiro
 
Porque o mundo pode ser sonhado
 
mas o amor…
o amor precisa ser sentido

 
***
 2026-05-27 - O que a imaginação vê, o toque confirma 
nn(in)metamorphosis

25/05/2026

Geometria do EU




Se leio desprendo-me do peso do corpo
e deixo que as palavras me empurrem
como vento invisível nas costas

 atravesso ruas que nunca pisei
habito vozes que não são minhas
e esqueço por instantes quem fui
 
Mas se escrevo abro a porta por dentro
e desenho o caminho com as mãos
como quem acende luz no escuro
 
vou onde quero sem mapa nem medo
porque a direção nasce em mim
e o destino aprende o meu nome


Frase Base
 "Se leio, saio de mim e vou aonde me levam. Se escrevo, saio de mim e vou aonde quero."
do blog  A voz à solta
Uso devidamente autorizado


 
***
2026-05-25 – Geometria do Eu
nn(in)metamorphosis 

20/05/2026

Na maresia do mundo

 


Não sou poeta
nem sei ler poesia
 
Sou gente comum
que escreve o que sente
e sente o mundo na maresia
 
Todos os dias têm poesia
mesmo quando ninguém repara
 
ela esconde-se nas coisas pequenas
num copo de água pousado à pressa
no som leve de passos ao longe
na luz que entra sem pedir licença
 
Quando não a vejo
fecho os olhos
não para fugir
mas para escutar melhor o mundo
 
E então sinto
 
o vento a dançar sem corpo
o tempo a respirar devagar
o silêncio a dizer tudo
 
Talvez a poesia seja isso
não algo raro
 
mas algo que só aparece
quando ficamos quietos
o suficiente para sentir


***
2026-05-20 – Na maresia do mundo 
nn(in)metamorphosis

18/05/2026

Entre dois mundos

 



Entre o céu e a terra
há uma linha invisível
tão fina que não corta
tão leve que não pesa
 
Não separa o que somos
nem divide o que sentimos
é apenas um lugar
onde tudo se mistura
 
Ali, o sonho toca o chão
e os passos ganham asas
 
Ali, o silêncio fala
e o tempo abranda
 
Somos feitos dessa linha
metade queda, metade voo
com os pés na incerteza
e o olhar no infinito
 
e
 talvez viver seja isso
 
caminhar sem romper
aprender que entre tudo
não há distância
há encontro

 

***
2026-05-18 – Entre dois mundos 
nn(in)metamorphosis


15/05/2026

É este o caminho?

 


É este o caminho?
 
Sempre que duvidares
dá mais um passo
 
Não precisas de ver tudo
nem de saber onde vai dar
 
Basta o chão à tua frente
e a coragem de continuar
 
É assim, devagar
que o caminho se faz

  

***
2026-05-15 – É este o caminho?
nn(in)metamorphosis


13/05/2026

Assim se fazem os dias

 




Os dias são feitos de reflexos
e de sombras que não se dizem
de vidros onde encostamos o rosto
à procura de um nome que seja nosso
 
São feitos de sonhos
uns leves como o pó na luz da tarde
outros mais pesados, presos na memória
onde o tempo se demora
 
Há vozes em grupo
passam por nós, atravessam-nos
deixam ecos no silêncio
como se o mundo falasse por dentro
 
E há o pó que sacudimos
num gesto pequeno
quase invisível
mas que levanta no ar
o que fingimos esquecer
 
Assim se fazem os dias
de fragmentos, ruído e ausência
de mãos vazias
que ainda procuram luz

 

***

2026-05-13 - Assim se fazem os dias
nn(in)metamorphosis 


11/05/2026

Nem Tudo é Perda

 




Nem tudo o que dói é perda
Às vezes é só poda
 
Há cortes que custam
mas não são castigo
São escolhas da vida
para abrir espaço
 
Dói ver cair o que era nosso
dói largar o que ainda sentimos
Mas nem tudo o que fica parado cresce
e nem tudo o que cresce pode ficar
 
Há um tempo de segurar
e um tempo de deixar ir
 
E nenhum deles é fácil
 
Por isso, quando doer
talvez não seja o fim
Talvez seja só a vida
a preparar-te para continuar diferente…

 

 
***
2026-05-11- Nem Tudo é Perda 
nn(in)metamorphosis

04/05/2026

Quando o tempo encontra sentido

 



O que é uma data
se não se encaixar num horizonte
num sonho, numa memória?
 
é apenas um número no tempo
um risco no calendário
algo que passa sem deixar eco
 
mas se encontra lugar em nós
ganha peso e direção
torna-se ponto de partida
ou regresso silencioso
 
há datas que são quase nada
e outras que ficam
como se o tempo ali tivesse parado
só para ser lembrado
 

***
2026-05-04 - Quando o tempo encontra sentido 
nn(in)metamorphosis


29/04/2026

Do lado de lá do silêncio

 




Ganhei coragem
e fui à procura dos vazios
do lado de lá do silêncio
 
não havia mistério
nem portas fechadas
apenas o ar
leve
sem o peso das vozes
sem o bulício do mundo
 
um espaço aberto
onde o pensamento repousa
 
com o mundo calado
o silêncio não resistiu
desfez-se em fundo
como mar depois da onda
 
não respondeu
nem mentiu
 
ficou
como luz sem ruído
como um lugar
onde, por instantes
eu cabia
 
e soube
 
não me falta vida
falta-me espaço dentro dela
 
falta-me não ser só passagem
entre o que sou
e o que esperam de mim
 

 ***

2026-04-29 - Do lado de lá do silêncio 
nn(in)metamorphosis


27/04/2026

O que não se pode tocar

 



Há coisas que se erguem na mente
paredes de ar
tectos de silêncio pousados no peito
 
constroem-se com gestos suspensos
com palavras que nunca chegam a ser ditas
com promessas que existem apenas na intenção
 
e tudo parece firme
como se o invisível tivesse peso
como se o intangível soubesse permanecer
 
mas basta um sopro de lucidez
um desvio no olhar
um instante de verdade a atravessar o corpo
 
e aquilo que nunca teve matéria
cede
 
não faz ruído ao cair
não deixa ruínas
 
apenas um vazio mais nítido
onde antes havia a ilusão de forma

  

***

2026-04-27 – O que não se pode tocar – Llunar
nn(in)metamorphosis

22/04/2026

Entre o Fomos e o Somos

 


Volta! gritou a saudade
pelos campos leves da mocidade
onde o tempo corria sem peso
 
Lembra! disse a memória
trazendo tardes sem fim
e risos soltos ao vento
 
Esquece! aconselhou a razão
já com passos mais lentos
e olhos cansados de distância
 
Mas a mocidade não ouve
nem volta quando chamada
nem se deixa prender em lembrança
 
fica apenas como um sopro
entre o que fomos e o que somos
um clarão breve que insiste em arder
 

***
2026-04-22 - Entre o Fomos e o Somos 
nn(in)metamorphosis



15/04/2026

Ainda há terra boa

 


Vamos conversar
e deixar raízes profundas
mesmo quando o mundo se perde
mesmo quando se mata por ganância
 
mesmo assim
ainda há terra boa entre nós
ainda há espaço para cuidar
 
olha as árvores
não lutam pelo céu
e mesmo assim crescem
 
Há qualquer coisa em nós
que não quer desistir
que ainda sabe ser luz
 
podemos ficar
escolher diferente
ser mais simples
 
talvez seja isso que importa
 
a vontade quieta
de ficar
de cuidar
de não ferir
 
e se ficarmos
se cuidarmos
mesmo quando tudo parece perdido
 
então
ainda há esperança
ainda há raízes profundas

 

***

2026-04-15 – Ainda há terra boa 
nn(in)metamorphosis


13/04/2026

Viver entre o que explode e o que permanece




O corpo não aprende a ficar
é feito de nuvens quentes
de trovões que não avisam
de chuvas que chegam sem pedir licença
 
Há dias em que transborda
em que tudo nele é excesso
vento, febre, impulso
um verão que não sabe ser brisa
 
Mas a cabeça…
 
a cabeça é outra estação
clara como um céu que nunca cede
reta, metódica
conta os passos da tempestade
como quem observa por uma janela fechada
 
Ela entende tudo
nomeia, organiza, explica
enquanto o corpo desmancha
em água e relâmpago
 
E debate-se entre os dois
metade caos que sente
metade lucidez que assiste
 
Talvez viver seja isso
 
Não escolher um lado
mas respirar
no intervalo
entre o que explode
e o que permanece

 

 ***

2026-04-13 - Viver entre o que explode e o que permanece 
nn(in)metamorphosis


06/04/2026

Depois de nós

Imagem gerada por IA


Fomos construídos
com tempo
e pelo tempo
 
como paredes lentas
erguidas em silêncio
 
Vê-me
A mim
 pelos teus olhos
como quem reaprende
o contorno de uma casa
que já habitou
 
e procura-me
se eu falhar no presente
no cerne da tua memória
onde ainda respiro
sem que o saibas
 
porque há coisas
que o tempo não leva
 
e nomes
que ficam
mesmo depois de nós

 

***

2026-04-05 – Depois de nós 
nn(in)metamorphosis